No escuro, florescem liberdade e resistência: Gi Monteiro transforma sombra em poesia e inaugura “Céu da boca da noite”, sua primeira exposição individual, revelando caminhos invisíveis de corpos negros e trans.
No mês da visibilidade trans, o escuro se torna um território de resistência, memória e criação. É nesse espaço que a artista travesti negra Gi Monteiro inaugura sua primeira exposição individual, Céu da boca da noite, no dia 13 de janeiro, na Cave, em Fortaleza. Entre pinturas, desenhos, tecidos, esculturas, fotografias e instalações, Gi transforma o escuro em exercício de liberdade, homenageando corpos dissidentes e escrevendo uma narrativa de reparação histórica.
A escolha do mês de janeiro não é casual. O Mês da Visibilidade Trans é mais do que um calendário simbólico: é um reconhecimento político e cultural de vidas que foram historicamente silenciadas.
“O mês da visibilidade trans evidencia disputas políticas cotidianas em torno do livre acesso e do exercício pleno de direitos por pessoas dissidentes de gênero, como eu.” —Gi Monteiro
No universo da arte, essa visibilidade é essencial. Afinal, a arte constrói imaginários, molda formas de ver a realidade e os futuros possíveis — e não pode continuar reproduzindo apagamentos.

Na obra de Gi, o escuro não é ausência, mas abundância de possibilidades. Como a flor do mandacaru, que brota apenas na noite do sertão, o escuro oferece refúgio e fertilidade. Foi no escuro da noite que pessoas negras escravizadas traçaram rotas de fuga e criaram alternativas de liberdade. Foi nele que travestis, chamadas “Damas da noite”, encontraram meios de sobrevivência quando a sociedade as excluía. Assim, o escuro se torna um símbolo de resistência e um espaço poético para corpos que desafiam estruturas de opressão.
Curador da exposição, Lucas Dilacerda observa:
“A artista promove uma recusa às demandas do sistema neoliberal das artes, que constantemente exige de artistas minoritários a busca por visibilidade e representatividade. Em vez do visível, Gi reivindica o direito ao invisível, ao escuro e ao mistério. Em vez da representação, reivindica o direito ao irrepresentável e ao incontrolável.” —Lucas Dilacerda
No trabalho de Gi Monteiro, o abstracionismo é política. As imagens não se formam na retina, desaparecem no mesmo instante em que surgem. Cada obra é um retrato da vida em germinação, um mapa das forças invisíveis que sustentam o corpo e promovem a vitalidade. Curvas, espirais, contorções e expansões se transformam em linguagem da liberdade, lembrando que para florescer é preciso atravessar contrações intensas — sejam elas sociais, políticas ou existenciais.

A própria artista reflete sobre sua prática:
“Assim como os processos de transição de gênero e de insubmissão negra, minha prática se constrói no próprio fazer, na insistência que afirma a vida como movimento. O escuro, a observação das nuvens, a abstração e as práticas negras e trans que atravessam meu trabalho anunciam outras possibilidades de existência e modos de produção artística.” —Gi Monteiro
Gi Monteiro é uma encruzilhada de mil almas — negras, indígenas, travestis e nordestinas. Nascida em 1997, formada em História e Artes pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), sua obra transita entre desenho, pintura, tecido e escultura, articulando tempo, terra e movimento ao abstracionismo negro e travesti. Participou de exposições de destaque, como o 76º Salão de Abril (2025) e “Antes do Brasil, o Nordeste” (2025), e agora inaugura seu primeiro espaço individual, reforçando a potência política de sua criação.

Sem mais delongas, leia com exclusividade a entrevista da artista Gi Monteiro conduzida pelo curador Lucas Dilacerda:
Imagens de liberdade, sem forma fixa, migrantes e sem fronteiras
A sua primeira exposição individual acontece no mês da visibilidade trans. Para você, qual é a importância dessa data e como a sua exposição dialoga com ela?
O mês da visibilidade trans evidencia disputas políticas cotidianas em torno do livre acesso e do exercício pleno de direitos por pessoas dissidentes de gênero, como eu. Entendo a exposição como um espaço que rompe a norma, tensiona os aparatos opressores e rememora as muitas vidas trans que criaram alternativas ao modo de vida dominante. Essas trajetórias mostram que a luta pela liberdade de viver produziu formas de aprendizagem, resistência e criação. Com elas eu me vinculo; a elas eu me filio.
A sua pesquisa investiga o escuro como possibilidade poética de liberdade para corpos trans e negros. Para você, o que significa o escuro?
Meu trabalho nasce do escuro. Ele carrega memórias íntimas e coletivas, apresentando o escuro como espaço de proteção, invenção e fuga. Historicamente, foi nele que rotas de liberdade se criaram contra o sistema escravocrata e que identidades dissidentes de gênero e sexualidade puderam existir fora da vigilância violadora da luz. Investigo o escuro como contraponto às políticas da luz, entendidas aqui como dispositivos de controle, violência e exclusão. Criar, para mim, é habitar esse escuro, permanecer, escutar e me abrir ao que emerge. Assim como os processos de transição de gênero e de insubmissão negra, minha prática se constrói no próprio fazer, na insistência que afirma a vida como movimento. A abstração opera como esse território instável e em formação. As nuvens aparecem como imagens de liberdade, sem forma fixa, migrantes e sem fronteiras, em oposição à rígida violência paralisante destinada a corpos negros, trans, periféricos, nordestinos e do Sul Global. O escuro, a observação das nuvens, a abstração e as práticas negras e trans que atravessam meu trabalho anunciam outras possibilidades de existência e de modos de produção artística.

Nos últimos anos, artistas minoritários têm exigido mais visibilidade e representatividade nos espaços de arte. Em paralelo a isso, o sistema da arte tem cada vez mais cobrado desses mesmos artistas uma produção pautada na figuração e na reencenação de narrativas de violência. O que você pensa sobre as importâncias e as armadilhas dessas novas dinâmicas na arte contemporânea?
Minha prática emerge em uma rede de encruzilhadas. A figuração, historicamente, foi um dos principais dispositivos de construção de imaginários dominantes, sustentando cânones atravessados por colonialidade, racismo, patriarcado e outras formas de poder opressivo. Ainda assim, ela também se constitui como campo de disputa, onde memórias, cosmografias e tensões ético-estéticas são reativadas, abrindo espaço para imagens de gozo, alegria e existência produzidas por artistas que partem de lugares historicamente privados de direitos. Em deslocamento a esse campo, escolho a abstração. É nela que encontro um território de criação, onde o interesse não recai sobre a forma reconhecível, mas sobre o movimento. A abstração me permite imaginar o voo — não apenas a ave, mas o gesto de migrar, de atravessar, de existir em fluxo. Meu trabalho habita esse estado de suspensão, onde o deslocamento é linguagem, liberdade, horizonte.
Podemos ler o seu trabalho como abstrato, pois ele recusa a figura e mergulha profundo no mundo da linha, da cor, do gesto e do movimento. Para você, o que é uma arte abstrata? E por que você escolheu caminhar com ela? O que ela te possibilita experimentar?
A abstração é uma abertura para o inaudito, para o insondável, para o mistério, para aquilo que pode vir a ser, para aquilo que se foi e ainda é sentido, para a sensibilidade e para a diferença. Ela nos convida a percorrer caminhos ainda não tangenciáveis, reafirmando a vida como eterna potencialidade de mudança e transformação. Sam Gilliam, pintor abstrato afro-americano, fala da abstração como uma força ativa que bagunça; para mim, ela inaugura a percepção de algo que ainda não foi experienciado, como o prazer de desafiar o próprio paladar.

Por fim, gostaria de te perguntar qual é a importância de apresentar a exposição Céu da boca da noite. Quais discussões você gostaria de provocar no público?
A exposição reúne trabalhos recentes que abordam a liberdade, o movimento, a relação com a natureza e com modos de fazer coletivos. A série Viveiros lunares ecoa o movimento de flores que atraem seus polinizadores apenas à noite, revelando a natureza como espaço fecundo de diferença e variação. Em Crepúsculo, o desenho se move em corpo, tecido e cor, na transição entre o dia e a noite, naquilo que se transforma e escapa à forma. Ao mesmo tempo, a exposição constrói memória no campo em disputa da história da arte, concentrando-se na produção de uma artista negra travesti da periferia de Fortaleza. Um espaço erguido coletivamente, em mutirão, onde atos de resistência se tornam, essencialmente, atos de criação.
A exposição Céu da boca da noite é assinada pela artista Gi Monteiro, com curadoria de Lucas Dilacerda e curadoria adjunta de Wes Viana. O projeto gráfico é de Alifa Maria, com assistência de criação de Antônio Breno, Paloma Monteiro e Rafael Aires. A direção fica por conta de Pedro Diógenes, enquanto a produção é realizada por Dharana Vieira e a comunicação por Pedro Bessa. As fotos de vista são de Jorge Silvestre, e a montagem foi realizada por Edison Filho, Mateus Oliveira e Amanda Melo, da OGGIN LTDA.
A mostra ficará em cartaz até 28 de fevereiro de 2026, em Fortaleza, oferecendo ao público a experiência do escuro como gesto de liberdade, resistência e poesia.